Muita coisa mudou em minha vida depois que me casei com
Vitor. Depois de sair de um relacionamento abusivo com Celso, que me espancava
pelos motivos mais insignificantes, um marido carinhoso era tudo de que eu
precisava. No começo fiquei meio receoso. Apesar de em nossa amizade ele nunca
ter demonstrado nenhum tipo de agressividade, pelo contrário, sempre me
tratando com um cuidado especial, achei que passando a pertencer a ele de papel
passado as coisas poderiam mudar, nem que fosse um pouco. Achei que ele se
tornaria mais ríspido. Já vi muito isso, supres dando broncas assustadoras em
seus namorados. Meu amigo Gabriel é um exemplo disso. Mas Vitor foi um doce. Me
pegava em seus braços monstruosos com uma incrível delicadeza. Me senti
protegido em meio a todos aqueles músculos. O curioso é que na rotina doméstica
ele sempre deixou evidente sua superioridade física. Abria vidros de palmito
com uma facilidade humilhante, me carregava no colo para o quarto e quando uma
moeda caía debaixo de algum modo pesado,
o erguia sem nem franzir a testa. Eu sei que, apesar sua afabilidade, ele era
cruel em seu trabalho. Às vezes ouvia as surras que ele dava em algum
subalterno ineficiente e voltava para o quarto rosnando suavemente, com o corpo
deliciosamente suado e a musculatura inchada. Mas ele passava direto, tomava
seu banho e só depois que estivesse voltado ao seu temperamento habitual se
aconchegava junto de mim. Mas vez ou
outra eu sentia um pouco daquela energia destrutiva emanar de seu corpo. Era
muito excitante, mesmo sabendo o perigo que havia debaixo de toda aquela bela
aparência.
Vitor até que estava se saindo bem dentro da Irmandade, mas
ainda tinha muitas fraquezas humanas. Não tinha o pulso firme necessário para
comandar seus soldados e por isso recebia frequentemente reprimendas de Paulo,
seu superior imediato. Eu os ouvia conversando lá embaixo e sabia que meu
marido estava numa situação complicada quando o tom de voz de Paulo se elevava.
Sua posição era instável, ainda tinha muito o que provar e se nãos e tornasse
um líder rigoroso, corria o risco de ser rebaixado. Eu não sei o que seria de
nós de isso acontecesse. Nossa casa ainda era da Irmandade, ele teria de
trabalhar muito para pagá-la. Possivelmente teríamos de morar num lugar bem
mais modesto, sem a segurança que havia ali. Com ele por perto não havia
perigo, mas quando ele saía eu ficaria desprotegido, não fosse os garotos que
faziam segurança ali. Eram excelentes rapazes, com quem me sentia seguro e de
quem ficara amigo.

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